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A Grande Goiânia, composta pela capital e outros 20 municípios da Região Metropolitana, tem experimentado um crescimento “pelas franjas” nas últimas décadas. Segundo pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa-UFG), em 2018, essa expansão foi impulsionada por políticas habitacionais de alcance federal e estadual, como o Minha Casa, Minha Vida, o Crédito Solidário e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Embora tais políticas tenham ampliado o acesso à moradia, o problema habitacional permanece, e especialistas apontam que o processo de periferização continua afetando diretamente a qualidade de vida dos moradores. O geógrafo Adão Francisco de Oliveira destaca que “as cidades cresceram sem considerar as necessidades das pessoas que vivem nas periferias”. Nessas áreas, a carência de infraestrutura básica, como escolas, postos de saúde, transporte e espaço de lazer, é uma realidade frequente.
De acordo com dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiânia possui 1.437.366 habitantes. Os dados também mostraram que a Região Metropolitana da capital teve um aumento expressivo, registrando a segunda maior taxa de aumento populacional do país, com uma expansão de 19,35%. Três municípios goianos se destacaram nacionalmente pelo crescimento em comparação à pesquisa anterior. Abadia de Goiás, Goianira e Senador Canedo tiveram altas de 178,18%, 111,15% e 84,31%, respectivamente.
Desafios
A expansão urbana de Goiânia, embora positiva em termos de desenvolvimento, levanta preocupações sobre a sustentabilidade do crescimento metropolitano. A cidade, inicialmente projetada para uma população muito menor, viu-se superdimensionada, com infraestrutura e serviços públicos insuficientes para atender à demanda crescente. A expansão desordenada das cidades vizinhas agravou a situação, gerando uma região metropolitana com sérias deficiências.
Essa preocupação é compartilhada por Weslley Junior dos Santos, que vive no setor Primavera, em Goiânia. “A gente se sente esquecido. Parece que a cidade acaba aqui”, disse. O cidadão ainda revela uma preocupação recorrente dos moradores com a falta de passarelas e os constantes acidentes na GO-070.
“A gente se arrisca todo dia para atravessar a rodovia porque não tem passarela. É como se a nossa vida não valesse nada”, afirma o morador.
Para Adão Oliveira, esse fenômeno de periferização reflete problemas no planejamento urbano, que, em sua visão, muitas vezes prioriza o lucro. Ele também vê a questão como uma preocupação crescente em cidades brasileiras: “O resultado é uma segregação espacial que aprofunda as desigualdades sociais”.
Ainda de acordo com Adão, a referência de urbanidade da cidade se deslocou do centro para bairros nobres, como o Marista e o Alto da Glória. Essa mudança acompanha a concentração das classes mais favorecidas nessas áreas, enquanto as populações de baixa renda são marginalizadas nas periferias.
“As pessoas de baixa renda que ocupavam áreas centrais se deslocam por falta de condições financeiras de continuar ali, então gentrifica o espaço”, explica o geógrafo.
Vivências
A falta de saneamento básico e de água potável, aliada à ausência de oportunidades de trabalho, marca a vida das famílias que residem nas periferias. Hélia do Santos, moradora do Setor Serra Dourada, em Goianira, exemplifica essa realidade ao relatar que, mesmo morando em um dos primeiros bairros da região, ainda não possui saneamento básico em casa. ”Não temos água encanada nem rede de esgoto”, relatou a moradora.
Essa realidade é compartilhada por muitos, como confirma Diana Kelly, moradora do bairro Curitiba II. “De todos os problemas, a falta de saúde de qualidade tem sido um desafio diário”. A situação também é relatada pelo trabalhador Paulo Ferreira, que reside no município de Senador Canedo, e destaca que “Muitos de nós enfrentamos essa rotina cansativa, saímos para trabalhar à noite e voltamos para casa à noite”, pontuou.
Outro dado revelado pelo IBGE foi o tempo médio de deslocamento dos habitantes da região metropolitana para os centros de emprego e instituições de ensino, que supera os 60 minutos. Esse trajeto é feito muitas vezes em pé e em ônibus superlotados, como conta um morador de Aparecida que faz faculdade em Goiânia: “É um tour chegar na faculdade, pois o transporte público é ineficiente e desconfortável”.

Emocional
Além dos desafios físicos e estruturais, o fenômeno também limita o acesso à cultura e ao lazer. Moradores de áreas periféricas encontram dificuldades para usufruir desses serviços, muitas vezes precisando se deslocar até a capital em busca de opções de lazer. Essa realidade não é possível para a moradora Helia dos Santos, que prefere descansar no seu município nos momentos de folga do que retornar para Goiânia.
A psicóloga e doutoranda em Direitos Humanos, Andressa Teodoro, alerta para a invisibilização dos problemas de saúde mental da população mais vulnerável. “A falta de reconhecimento de condições como ansiedade, depressão e burnout entre os moradores das periferias reforça a desigualdade e impede o acesso a tratamento adequado”, explica.
Andressa ainda ressalta que a associação automática de pessoas de áreas periféricas a condições negativas contribui para a formação de um estigma. Segundo ela, esse fenômeno cria um ciclo de exclusão, impedindo que essas comunidades sejam valorizadas e reconhecidas. “As periferias têm seus saberes e suas potencialidades”, relatou.

